“Ele(a) não tem querer!”

Quantas vezes você já ouviu essa frase? Talvez tenha escutado quando uma criança disse que não queria abraçar alguém, escolher determinada roupa, comer alguma coisa ou participar de uma situação. E talvez, sem perceber, nós mesmos ainda a reproduzamos. Mas… e se, em vez de ensinar uma criança a simplesmente obedecer, pudéssemos ensiná-la a se posicionar?


Uma criança tem querer, sim.

E aprender a reconhecer, expressar e comunicar suas vontades faz parte do desenvolvimento da autonomia. Isso não significa que ela deva decidir tudo, muito menos que os adultos devam abrir mão dos limites. Crianças precisam de orientação, segurança e limites, mas também precisam encontrar espaço para participar das decisões que dizem respeito a elas. A combinação entre responsividade, limites claros e apoio à autonomia está associada a resultados positivos no desenvolvimento infantil. Afinal, existe uma diferença enorme entre dizer:


“Você vai fazer porque eu mandei.”


e dizer:


“Eu entendo que você não queira. Mesmo assim, precisamos fazer isso. Vamos pensar juntos em uma forma de tornar essa situação mais confortável?”


Na primeira situação, existe obediência. Na segunda, existe orientação com espaço para participação. E é justamente aí que a autonomia começa a ser construída. Mas como fazer isso no dia a dia?

Em pequenas situações:

  • “Você quer usar a camiseta azul ou a vermelha?”

  • “Você prefere guardar os brinquedos antes ou depois do banho?”

  • “Você quer dar um abraço ou prefere cumprimentar com um aceno?”

  • “Você está confortável em ir cumprimentar esse parente?”


São escolhas simples, mas que comunicam algo muito importante:
“Sua opinião importa.”

Oferecer escolhas possíveis é uma das formas de apoiar a autonomia infantil e pode contribuir para que a criança desenvolva senso de agência e participe ativamente das próprias ações. E isso também vale para os sentimentos. Quando uma criança diz “eu não quero”, nem sempre precisamos responder imediatamente com “você tem que querer”. Às vezes, podemos perguntar: “Por que você não quer?”


Talvez ela esteja com vergonha.

Talvez esteja cansada.

Talvez esteja desconfortável.

Talvez simplesmente não queira naquele momento.


E escutar não significa necessariamente concordar. Escutar é permitir que a criança seja compreendida antes de ser conduzida. É claro que existem situações em que o adulto precisará tomar a decisão. Segurança, saúde e responsabilidades não podem ser colocadas inteiramente sobre os ombros de uma criança. Autonomia não é abandono. Autonomia é aprender a escolher com apoio, dentro de limites seguros.


E existe algo ainda mais importante nisso tudo: quando ensinamos uma criança que pode falar sobre aquilo que sente, que seus limites serão considerados e que pode procurar o adulto quando estiver desconfortável, estamos também fortalecendo a relação de confiança entre eles. A criança aprende que não precisa esconder o que sente para ser aceita. E talvez seja aí que este assunto encontre o texto anterior.

Porque, assim como precisamos aprender a escutar os sinais do nosso corpo, também precisamos ensinar nossas crianças a escutar aquilo que acontece dentro delas. Antes de se tornar um adulto que ignora o próprio cansaço, ultrapassa os próprios limites e só percebe que algo está errado quando o corpo já está pedindo socorro, existe uma história de aprendizados. Aprender a reconhecer o que sentimos também é uma forma de cuidado. E talvez uma das coisas mais bonitas que podemos ensinar a uma criança seja justamente esta:

“Você pode me contar o que sente. Eu vou te ouvir. E, mesmo quando a resposta for não, seu sentimento continuará sendo importante para mim.”